fevereiro 23, 2014

Maledixit Circo.


Sinopse: 
O circo é amaldiçoado. 
E ele está na sua cidade. 
Tenha certeza de que se não temer, será recepcionado com toda a alegria de uma trupe circense, para que se junte à família nômade mais habilidosa da França. 
Então um homem de cabelos longos e brancos aparece em frente a tenda que lhe levará para dentro do circo. Ele sorri com os olhos, e a atmosfera parece se acender, apesar de o sol já estar escondido há vários minutos. Ele reclina o corpo e lhe dá passagem.
Vamos ver qual é a sua habilidade...


Capítulo 1 - Arrivée





— Post Solis

O vento galanteava, murmurando os mais íntimos sussurros nos ouvidos do sublime ilusionista, tão bem conhecido na região pelo seus truques maravilhosamente elaborados. Este por sua vez arrepiava-se inteiro toda vez que chegava o crepúsculo, enchendo o céu dos mais belos degradês, como se gritasse ao mundo para olhar para ele, para que reparassem no quão bonito ele era, e então sumia, deixando a todos na negritude assombrosa, porém sensual e também encantadora que era a noite. 

A brisa, amante da escuridão, que fazia o que o céu não conseguia, ou talvez não ousasse fazer: dançava pelo corpo da pessoa, falando com ela num único tom, aquele que só a sua consciência consegue decodificar, e deixava à mostra todo e qualquer segredo, tentando, provocando, influenciando. E era com essa junção de poderes do qual o Nuit Maguique conseguia extrair as boas coisas que existiam nos corações das pessoas e manter-se em pé, apresentando-se noite pós noite, com carisma e perfeição.

"Seigneur..." a pequena criança, que estava por volta dos seus sete anos e meio de idade sorriu cauteloso, ao puxar a barra do sobretudo negro que vestia o proprietário do circo, chamando-lhe a atenção.

"Pode dizer, pequeno Ben".

A voz do homem preencheu os ouvidos de todos que estavam perto, assim como a própria criança da qual ele dirigia a palavra, na mesma intensidade e força cujo vento soprava. 
Naquele instante parecia que eles — o ilusionista e o vento —  eram apenas um; um casal de amantes que viviam uma tragédia amorosa, amaldiçoados. Mal sabia ele  que a vida lhe daria o prazer de degustar e viver um romance desses, algo impossível na sua concepção.

"Perguntaram à minha mãe o por que de nós nunca sairmos da França, mesmo com tantos convites e...", abaixou a cabeça, como se estivesse com vergonha pela audácia que pensava cometer.

Para a surpresa e alívio de Ben, o ilusionista — e dono, apenas abaixou-se, apoiando o próprio peso nos joelhos, ficando relativamente da mesma altura que a criança, e tocou-lhe o queixo, fazendo-o erguer os olhos, encontrando os seus, tão negros quanto o céu que os rodeava. Ben não encontrou ira, ou desgosto, muito menos desprezo naquelas orbes que fitadas tão de perto se tornavam mais brilhantes que a própria lua, e obviamente roubavam toda atenção da mesma, que pairava acima de ambos.

"Não temos como sair daqui, pequeno. Nós não podemos" disse, com um sorriso pesaroso, praticamente imperceptível.

"Mas por que?" fez um beicinho.

"Você ainda é muito novo..." levantou-se, balançando os cabelos louros da criança e sorriu, de um jeito que Ben raramente via. "Temos um show a fazer, vamos lá".

E com isso, encerrando por hora o assunto, o ilusionista seguiu para sua própria tenda, encontrando um de seus grandes amigos sentado sobre seu baú predileto, ostentando seu sorriso habitual, que tinha o poder de encher aquele coração gélido e quase infeliz, de toda a pressão e dificuldade da forma de vida que levava.

Para aquele mágico, ele só podia contar com seu melhor amigo. Desejava apenas a companhia e a presença de espírito daquele amigo...

Por enquanto.


— O circo


O pano envolvia a cintura do garoto cujos cabelos rosas flamejavam contra a luz branca, que rodopiava por cada canto da tenda, do palco, e das arquibancadas. Ele segurava com destreza no fio principal, enquanto fazia seus braços sustentarem seu corpo, e sua perna largava o pano, e o pé direito elevava um dos panos soltos para o meio das pernas, e ele jogava os dois joelhos para o lado oposto, fazendo uma perfeita chave de cintura. 

Suas mãos soltaram o pano, e fez uma pose bela, ganhando uma salva de palmas de todos os ali presentes. Ele sorriu para todos, enquanto como em um piscar de olhos, ele virou para o outro lado, quase caindo ao chão, porém sendo sustentado pelo fio, que estava bem preso em sua cintura. Todos bateram palmas novamente por alguns segundos, e o silêncio mais uma vez envolveu aquele local.

O corpo de Byun Baek Hyun estava em chamas, a excitação correndo por cada uma de suas veias. E para a surpresa e alegria de sua família, ele estava sorrindo. Sorrindo com alegria, como não era de seu costume. Aquela devia ser a terceira noite seguida que Baek Hyun frequentava o circo, completamente louco de amores por cada uma das apresentações ali.

Oh Se Hun estava sozinho, apenas acompanhando Baek Hyun, seu vizinho e até o momento, melhor amigo. Sua família estava em algum aniversário de parentes distantes, e como respeitavam os desejos de Se Hun de não frequentar tais comemorações, o louro havia ido de companhia com Baek Hyun e seus pais. Na hora em que o mais novo ia chamar seu amigo para fazer algum comentário, as luzes se apagaram.

Era a vez do ilusionista.

Se Hun revirou as orbes, fazendo uma careta, enquanto Baek Hyun — sabendo que ele estava fazendo aquelas facetas — apenas deu-lhe um tapa na perna, ouvindo-o rir soprado em seguida. As luzes se reacenderam, e para a surpresa dos dois garotos, estavam o mágico e o domador no palco. 

Ali, naquele palco, estava a verdadeira razão do amor platônico de Baek Hyun. Ele estava encantado pela mágica. Ou talvez fosse o ilusionista. Ele não sabia ao certo. 

Oh Se Hun suspirou, e o domador olhou para si, mesmo estando a uma distância considerável. O louro corou, e o homem riu de canto, levantando as mãos e chamando atenção de seu tigre branco. Sim, o animal era branco, de olhos azuis brilhantes, que pareciam querer roubar sua vida. O tigre rugiu, como se respondesse ao seu dono, e então aproximou-se do mais alto, esfregando o focinho contra uma das pernas dele.

"Senhoras e senhores, hoje me apresentarei ao mesmo instante em que nosso incrível domador" disse o ilusionista, bem conhecido como Kai, apontando para o dito cujo, que tinha o nariz franzido, em uma expressão divertida e infantil, ao mesmo tempo em que levantava os braços. remexendo-o. "Fiquem de olhos abertos".

E assim, as luzes se apagaram mais uma vez, para apenas duas coloridas se acenderem. A vermelha em Kai, e a azul, no domador apelidado de Happy Virus. Era sim um nome infantil, e um quanto imaturo para um domador de animais selvagens, mas era o que melhor se atribuía para a presença de palco que ele infligia nos assistintes. Aquele garoto extremamente alto fazia as pessoas sorrirem apenas por dizer um Olá. Na maior parte de seus shows, ele sorria, ele conversava, e em dado momento, ele fechava o rosto, ficando sério — e até mesmo um pouco sensual —, para começar enfim sua aprensentação, onde com toda a sagacidade que existia em seu corpo, ele dominava, sem uso de violência ou arrogância, os animais que ficavam sob sua custódia.

E aquele tipo de poder, chamava a atenção de Se Hun, que nem sequer piscava quando ele estava no palco. O mesmo acontecia com Baek Hyun, que se atentava a cada detalhe da apresentação de Kai. Às vezes o pequeno Byun prestava mais atenção nas expressões, e no modo de condução do mágico, que no próprio espetáculo. Se achava um idiota por isso, algumas vezes no dia, mas logo dava de ombro.

Fora todas aquelas especulações, uma coisa era certa: Byun Baek Hyun e Oh Se Hun estavam enfeitiçados pelo circo, e obcecados por suas estrelas. Eles sonhavam com o momento que conseguiriam algum contato com eles, porém não conseguiam. Parecia até que aqueles dois eram intocáveis. Tal fato chateava um bocado os dois garotos, que estavam vivendo pela noite durante os últimos quatro dias.

Desde que o circo chegara, sim. Ele aparecera do nada, em algum ponto crucial da cidade. As tendas de cores brancas e vermelhas chamavam clarmente atenção, mas que dependendo do ângulo que você visse, se transformava em outro tom. Muitas bocas disseram presenciar cores completamente diferentes, causando diálogos condenscentes entre os cidadãos daquela cidadezinha francesa.

O malabarista e o trapezista estavam agora no palco, e foi então que Baek Hyun e Se Hun decidiram comer alguma coisa — sem menosprezar o trabalho daqueles dois garotos, é claro. Eles já haviam visto aquilo duas vezes seguidas. Aquela terceira podia deixar passar. Os dois garotos avisaram aos pais do mais velho, e seguiram com o dinheiro em mãos para a parte de fora daquela tenda principal.

Caminharam por alguns minutos, até encontrarem a tenda que vendia alimento. Baek Hyun pediu dois cachorros quentes, e duas latas de refrigerante. Virou-se para falar com Se Hun, porém apenas encontrou-o andando lentamente em direção a uma tenda roxa, que brilhava. Eles não haviam visto aquela, e a curiosidade estava apossando Se Hun, que agora esticava a mão, e puxava aquele pedaço de pano, encontrando milhares de lenços e lantejoulas espalhados pela parte interna da tenda. Atravessou aquele monte de coisa, e encontrou uma mesa, recheada de cartas e pedras.

Um homem apareceu detrás de várias cortinas azuis, e olhou para o garoto de forma incisiva. Os cabelos do homem eram vermelhos, e seus olhos bem delineados. Ele tinha o rosto tão belo quanto uma boneca de porcelana. Se Hun sorriu de canto, um pouco sem graça, e quando ia dizer alguma coisa, apareceu outro homem. 

Desta vez era alguém conhecido. A altura exagerada, os cabelos curtos e negros, o olhar infatil, e as orelhas grandes, foram identificadas por Se Hun no mesmo instante. Era o domador. Seu mais novo ídolo. O garoto sentiu seu coração acelerar, e sua mão suar, quando enfim aquele homem sorriu.

Se Hun fez uma mesura um tanto quanto exagerada — afinal não era francês, era descendente de coreanos —, retirando uma gargalhada do domador, que disse-lhe um boa noite, antes de sair da tenda, deixando-o sozinho com o ruivo. Quando Oh Se Hun se virou para poder cumprimentar o dono da tenda, seu corpo esbarrou na mesa, derrubando todas as cartas no chão.

"Me desculpe! Meu Deus, sinto muitíssimo" implorou Se Hun, com as mãos na boca, enquanto abaixava-se para começar a catar aqueles pedaços de papel, porém o ruivo o interrompeu, segurando sua mão, fazendo o loiro arregalar os olhos, com um leve temor de que fosse ser repreendido fisicamente.

"Há cartas viradas para cima" o ruivo começou a dizer, o tom calmo, até mesmo um pouco místico. "Veja só" apontou para cada uma delas. "Hm..."

"O que? São ruins? Eu vou morrer?" Se Hun perguntou, exasperado, enquanto o ruivo apenas ria daquela criança, que nada da vida parecia saber.

"Não, você ainda não vai morrer" respondeu, olhando-o nos olhos, vendo-o franzir o nariz, e fazer um bico com os lábios em seguida, como uma criança que acabou de descobrir que não vai mais poder comer seu doce favrito. "A carta dos amantes..." comentou o ruivo, alisando aquele papel que ainda estava caído no chão. "A da morte...", pensou o ruivo, passando a mão por ela, e a recolhendo, rindo mentalmente. Sabia que se comentasse sobre ela, o garoto sairia chorando daquela tenda. O cigano — que descendia de chineses, apesar de ter sido criado naqela trupe desde que se entendia por gente — olhou para a última carta, e não a compreendeu muito bem. 

Na verdade, franziu o cenho, recolhendo todas as cartas e guardando-as. Aquela última o confundiu de leve. Não, confundiu é a palavra errada. Aquela última carta o intrigou. Sua lamparina se acendeu, a chama daquela vela aumentando de forma esplêndida, como se o fogo tentasse falar consigo. O cigano respirou fundo, e reorganizou as cartas em cima da mesa, retirando seis delas.

Naquele instante, Baek Hyun entrou na tenda, chamando o nome de Se Hun, e ao ver que ele estava se consultando com o ruivo, pediu desculpas solenemente ao mais velho, enquanto este apenas sorria para o garoto, e o chamava, pedindo para que ele retirasse três cartas.

Baek Hyun mordeu o lábio inferior, e o fez o que ele pediu. Os dois amigos se entreolharam — e aproveitando o momento, Baek Hyun entregou o lanche de Se Hun para ele, que sustentou a comida em um banco ali próximo. O cigano olhou para as nove cartas, e como ele imaginava, tudo estava apontando para ligações.

O ruivo sorriu, e guardou as cartas mais uma vez. Se Hun mesmo sem ter entendido nada, retirou uma nota do bolso, e entregou-a para o cigano, que não aceitou. Disse-lhes que aceitaria de bom grado apenas a amizade daqueles dois. Os meninos franziram o cenho, agradeceram, pegaram suas coisas, e caminharam de volta para a tenda onde estavam os pais de Baek Hyun. O cigano suspirou, olhando para o bolo de cartas, sabendo que a partir de qualquer instante, coisas iriam acontecer. Aqueles dois garotos estavam marcados para com a trupe. 

Aquelas duas almas humanas estavam, de alguma forma, conectadas com o circo.

Postado por Scarlett Lefévre às 11:23

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