abril 03, 2014

Maledixit Circo - Capítulo Dois.

Capítulo 2 - Évasion




 A ideia.
"Nós devíamos ir com eles", disse Baek Hyun, após uma longa salva de palmas de todos que estavam ali dentro. O ar estava estático, e a objetividade imposta pelo olhar de Baek Hyun fez Se Hun se arrepiar. 
Sabia exatamente do que seu amigo estava falando. Entretanto o medo o rondava, ficando na espreita, pronto para mais um momento de dominação. Porém sem imaginar que o próprio Se Hun iria atingi-lo, o medo viu-se caindo ao chão, como se tivesse sido socado no estômago, quando os olhos secos e sem muita expressão de Oh Se Hun encontraram o do domador, que sorria para sua fera, e então desviou a face, encarando o loiro. 
Se Hun desviou o olhar, e ignorando as bochechas coradas, fixou os olhos em seu melhor amigo. Baek Hyun sorriu de canto, e os dois enfim voltaram a prestar atenção ao espetáculo.

 Insônia.
O caminho de casa havia sido longo e cansativo. Os olhos ameaçavam fechar, e o corpo cair sobre a cama, porém ainda estavam entrando em casa.
Baek Hyun fechou os olhos e visualizou as vestimentas de Kai. Visualizou também o rosto daquele homem sobre a meia luz. O olhar era fugaz, penetrante. Dava vontade de esfregar uma perna na outra, e de soltar grunhidos de frustração. As mãos coçavam, e ele fazia todos delirarem com mais um truque. 
"Cuidado", Se Hun disse, fazendo Baek Hyun abrir os olhos e colocar a mão em frente ao rosto, direto no batente da porta, aonde iria com toda a facilidade do mundo, bater o rosto, e machucar o nariz. Riu soprado, e agradeceu o loiro. Entraram ao quarto, e jogaram-se na cama. 
Eram quase cinco da manhã, e o sol ameaçava querer aparecer. Os dois garotos se olharam, e mudamente concordaram com o plano de Baek Hyun. Se Hun deixou a casa de seu amigo, e foi até o de sua mãe, que era na casa ao lado. Olhou para sua cama, que estava bagunçada, e cheia de revistas e livros espalhados por ela. Pegou um pequeno monte de roupas de seu armário, colocou-as em uma mochila. Foi então até o banheiro, e pegou todos os produtos básicos de que iria precisar. Também guardou comida, e pegou uma quantia um pouco alta de dinheiro, que havia guardado ao longo dos anos em uma caixinha. Colocou um casaco mais pesado — que aguentasse bastante frio, caso não houvesse muito êxito em sua missão pseudo suicida — e foi ao encontro de Baek Hyun.
Eles saíram na espreita, uma vez que todos na casa de Baek Hyun estavam dormindo pesadamente. Não havia mais ônibus àquela hora da madrugada, então decidiram ir a pé — após comerem algo na casa do mais velho.
Caminharam cerca de quarenta e dois minutos. O circo ficava do outro lado da cidade, e eles foram conversando coisas banais, assim o trajeto ficava mais rápido, e menos maçante. Baek Hyun suspirou ao se ver em frente ao circo. Se Hun engoliu em seco, e então raios de sol surgiram, cegando suas vistas por alguns segundos. Veio direto e certeiro, como se quisesse ferir as vistas dos garotos por algum tempo, como se fosse proposital. 
Ouviram risadas baixas, e então um silêncio tomou conta de todo o local. O circo estava fechado há uma hora. E após a aparição repentina do sol, o vento parou por alguns segundos, assim como os sons. Não parecia haver ninguém lá dentro.

 Invasão.
Baek Hyun encarou o portão. Era negro, e grande, entretanto as grades não eram grossas, e eles poderiam atravessá-las perfeitamente caso tentassem. Não havia placas de "não toque", ou "não ultrapassem". Era do senso comum não fazer esse tipo de coisa. Mas nessa noite, Baek Hyun era um desajustado. Ele jogou a mochila por cima da grade, ouvindo-a fazer um barulho quase surdo, por mais que estivesse pesada, para dentro da área circense. Colocou uma das pernas dentro da abertura, e deslizou com graça para o outro lado.
Sorriu para Se Hun que mordia os lábios, um pouco nervoso, mas logo imitou o amigo, perpassando o corpo magro e belo através das grades de metal, como se estivesse dançando, e não simplesmente invadindo uma propriedade alheia.
Começaram a andar, primeiro deram uma volta completa no circo pelo lado de fora, para se certificarem de que não havia ninguém por ali. Quando finalmente voltaram para os portões, perceberam que a tenda principal não estava trancada, amarrada, ou qualquer coisa do gênero. Poderiam simplesmente passar. E foi o que fizeram. 
Era o circo, como antes haviam visto. As tendas privadas espalhadas por todo o local, todas em cor negra agora. Durante a noite essa negritude ganhava um brilho colorido, e cada tenda tinha um tom diferente, que ia mudando conforme você saía dela. Era algo mágico. Você entrava em uma tenda levemente azulada, e quando a deixava, você piscava e ela estava agora laranja. Se você piscar de novo, parecia que estava em outro ponto do circo. Você não sabia nem mais se havia estado dentro daquela barraca ou não. E era esta a graça pós espetáculo. Conversar sobre as tendas, e ver como cada um via cada uma delas de uma forma.
Cada artista tinha sua tenda, e cada tenda tinha sua própria beleza. Havia a tenda principal, que ficava no centro de toda essa feira artesanal, e lá as principais atrações aconteciam. 
  Entretanto agora, às cinco e meia da madrugada nada havia além do preto, do vento, e do canto de pássaros ao longe misturados com as respirações nervosas e ansiosas dos garotos.
Se Hun andou vagarosamente, passando os dedos pelo tecido sedoso, que deixava rastros secos de algo que parecia purpurina —  mas que não se conseguia ver, até estar em frente à tenda principal, que tinha as cortinas abertas. Baek Hyun se juntou à ele, e largou a mochila ao chão, olhando para tudo com as íris tão brilhantes quanto as estrelas em uma noite onde no céu não há nuvens.
Era um cenário típico, haviam várias caixas espalhadas, roupas deixadas ao vento. Animais dormiam em cantos distintos, e os raios de sol entravam por cada poro da tenda maior, deixando aqueles pequenos fiapos de luz, onde se vê completamente a poeira, porém esta luz não era o amarelo solar que estamos acostumados. Cada filete era de uma cor, simplesmente belo, e inesperado.
"Olá?", Se Hun chamou, a voz tendo como resposta um eco finito. "Há alguém aqui?" 
Baek Hyun riu pelo nariz, e sentou-se em cima de um caixote, que quebrou-se com seu peso. Se Hun virou para sua direção e viu o amigo sentado, com as pernas na altura dos ombros, e a expressão confusa, juntamente do cabelo bagunçado. Se Hun gargalhou gostosamente, e quando parou, ainda conseguia ouvir sua voz vibrando por todo o local, tocando o pano que os cobria e então sumindo.
Um vento forte rodopiou o corpo do loiro, e ele sentiu como se tivesse sido intimamente tocado. Tremeu, em um calafrio brusco, olhando para Baek Hyun, que nem prestava atenção em si, e sim na mochila, de onde retirava um pacote grande de biscoito, e uma garrafa de suco.
"Que foi?", olhou para Se Hun, que o encara de forma impassível, "eu tô com fome."
"Não falei nada."
Baek Hyun deu de ombros, e ofereceu o lanche à Se Hun, que aceitou de bom grado. Sentaram e ficaram conversando por quase uma hora e meia, porém o sono dominava o corpo daquelas duas crianças. Estavam acordados desde a manhã anterior. E agora, dentro do circo, uma paz diferente enchia seus corações.
Se Hun deitou no colo de Baek Hyun, que apoiava o corpo contra uma das mochilas, afim de pegar no sono. Em poucos segundos Se Hun sentiu-se pegar no sono, sendo embalado por uma nota musical que ele não sabia vir do circo, ou da sua mente.
Baek Hyun tinha os olhos semi abertos, cansado demais, porém curioso e animado demais para render-se ao sono. Piscou uma vez, e seus olhos se demoraram a abrir, entretanto quando o fez, o garoto jurou ver os olhos do tigre branco à sua frente, encarando suas orbes com ar de curiosidade e admiração, enquanto sua epiderme se arrepiava com o toque de mãos macias, que corriam desde seu ombro exposto pela regata, até suas mãos, onde enlaçavam seus dedos. Quando ousou se remexer, ouviu um sopro perto de sua orelha, e sua cabeça pendeu para o lado, os olhos se fechando, e antes que pudesse cair na tentação de dormir, um odor de menta adentrou suas narinas, e um arrepio correu sobre suas pernas.
Sem forças para coordenar o próprio corpo, Baek Hyun abriu a boca, porém o sono possuiu seu corpo, fazendo-o enaltecer no mundo dos sonhos.
Postado por Scarlett Lefévre às 13:53

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