maio 04, 2014

Maledixit Circo - Capítulo Três.

Capítulo 3 - Découverte.




— Descoberta.

Chovia naquele dia.
E o barulho — que ao ouvido de BaekHyun e SeHun era gostoso, os fizeram despertar. O sol brilhava de maneira tímida, porém continuava chamando atenção, como era de se esperar. O vento batia contra tudo e contra todos, balançando os cabelos, os panos das tendas. Era quase hora do pôr do sol, e aquela sublime bola de luz, preparava-se para se retirar, e deixar seu posto por algumas horas. Descia pelos céus, como se estivesse caindo vagarosamente em um escorregador, tendo o céu inteiro como seu parque de diversões particular.
BaekHyun passou as mãos pelos cabelos alourados e lisos de SeHun, vendo-o franzir o nariz, e lamber os lábios, tirando a secura deles após horas dormindo, e então aninhando-se novamente ao colo do moreno. BaekHyun sorriu, e bagunçou aquelas madeixas novamente, desta vez com certa pressão, fazendo seu amigo abrir um dos olhos e encará-lo, a face cansada e preguiçosa.
SeHun sentou-se, ainda olhando para BaekHyun. Eles sempre fizeram isso, de se comunicar, ou de entenderem-se, apenas pelo olhar. Sempre foi muito fácil compreender um ao outro, mesmo sem o uso de palavras. Eles atribuíam essa capacidade, ao fato de serem vizinhos desde o nascimento de ambos. Era uma questão de se conhecerem por toda a vida.
O louro, e um ano mais novo, levantou-se, buscando a garrafa d'água e consumindo um pouco do líquido, sentindo aquela substância morna descer por sua garganta, molhando todos os tecidos e matando sua sede, ao mesmo tempo em que calava seu calor corporal.
O sol começou a se pôr vagarosamente, como uma lagarta que caminha em direção ao seu casulo, escondendo-se do mundo por alguns instantes. Era uma pressa um tanto quanto lenta. Aqueles poucos minutos dos quais o sol levava para se esconder, eram os sublimes momentos de despedida. Aqueles segundos deslizando para além do horizonte, eram apenas suaves acenos, uma mensagem natural de boa noite.
E para a alegria de muitos, especialmente da trupe circense, a noite aparecia brotando como uma borboleta recém nascida. Suas asas cobrindo todo o céu, e sua essência iluminando a cidade.
BaekHyun se remexeu, inquieto, ao constar que SeHun havia se levantado, e tinha o cenho franzido, obviamente confuso, enquanto encarava algo. Seguiu o olhar do louro, e foi então que tudo finalmente começou.
A lua havia tomado o lugar do sol, e era assim que o circo ganhava a vida.
Uma luz única e especial que vinha de cada pessoa, de cada integrante; aparecia, brotando do meio de cada um daqueles corpos, espalhando-se por todo o espectro, envolvendo a forma, e enfim recriando os corpos.
      O circo e todos os seus integrantes estavam nascendo perante os olhos dos dois garotos, brotando como uma flor de lótus.
Era um ato tão bonito, e extremamente confuso. BaekHyun estava em completo e silencioso pânico. SeHun, impassível. Os olhos do mais velho pairaram no mágico, que estava com um semblante sério quando finalmente as luzes cessaram sobre seu corpo. Estava devidamente vestido com sua roupa preta, uma gravata afrouxada na cor vinho incendiava o ambiente, fazendo o sangue de BaekHyun borbulhar, e o oxigênio tornar-se insuficiente por alguns minutos.
SeHun olhou para o canto esquerdo, e avistou o cigano do dia anterior com o corpo repousado na pilastra. Seus cabelos vermelhos, seus olhos repuxados, e a maquilagem escura chamavam completamente atenção. Mas não foi exatamente a questão da aparência - perfeita - que chamou a atenção do louro, e sim o fato de ele estar com uma das cartas que havia retirado quando o consultou nas mãos, e um sorriso prepotente nos lábios. Um sorriso de quem sabia mais do que deveria.
Um rugido então reverberou o ambiente, fazendo SeHun e BaekHyun tremerem de leve. Ambos olharam para a direita, e lá estava ChanYeol, o domador de animais, com sua mais bela preciosidade. Um tigre branco enorme, cujos olhos azul colbato sufocavam todos presentes. Era como se afogar em uma água invisível. 
Kai andou alguns passos, chegando perto de SeHun. Olhou-o com tanta precisão que o loiro não conseguiu proibir suas bochechas de ficarem rubras. Era o tipo de olhar que cutucava sua alma, como um beijo demoníaco que lhe arranca a essência da carne, puxando, envolvendo para uma atmosfera perfeita, onde nada mais é certo ou errado. O mágico era esse tipo de pessoa. SeHun se perguntou se era algum truque de mágica também, ou apenas a natureza daquela criatura.
ChanYeol encostou o corpo contra o tigre, que ronronou de leve - um som grave e nada parecido com um ronrono de gato doméstico, porém ainda assim, era um som gostoso. O domador fez um carinho em seu animal, e este calou-se por alguns segundos.
"Vocês não deviam estar aqui", disse o mágico, finalmente quebrando todo aquele maldito e agonizante silêncio. 
Um minuto se passou até que SeHun criou coragem e respondeu: "Hm, nós sabemos..."
"Então por que estão aqui?", o dançarino de cabelos rosas perguntou, a voz escorrendo veneno e prepotência. 
"Porque queremos", dessa vez foi BaekHyun quem respondeu. "Gostamos mais do que deveríamos do circo, e queremos ficar".
Uma risada explodiu pelo ambiente. Era o dançarino de novo. Aquele gargalho estava recheado de escárnio, o que enfezou um pouco BaekHyun.
"Quieto, LuHan", disse o domador. Sua voz era intensa, grossa e qualquer um em sã consciência obedeceria após ouvi-lo ordenar daquela forma. 
O sangue de BaekHyun esquentou, e ele não soube dizer o porquê.
De repente o tigre levantou-se, e caminhando com singularidade e destreza, foi até o encalço de Baek Hyun e o cheirou por alguns segundos. Ameaçou abrir a boca, e SeHun trincou-se ao chão, temeroso; BaekHyun estava desta vez impassível, e pela primeira vez da vida não tinha medo de algo, o que era extremamente estranho. Quando o tigre aparentou estar novamente calmo, ele aproximou seu corpo do de BaekHyun e esfregou-se contra ele, exatamente como um gato doméstico.
"Ora, ora, isso sim é uma novidade", o cigano, chamado Zi Tao exclamou.
ChanYeol olhou para o chinês com o cenho levemente franzido, e o sorriso de Tao apenas aumentou. "Você sabia disso?", o domador perguntou.
"Sim", respondeu, olhando para suas unhas pintadas de preto, que descascavam de leve, e então ergueu o queixo, encontrando o olhar do domador e do ilusionista, que o encaravam com a mesma intensidade e aflição. "As cartas nunca me escondem nada".
"E não pensou em contar isso para gente?" ChanYeol perguntou, o tom de voz aumetando de leve, porém tal fato nem sequer abalou Tao.
"Hm, não. Tem coisas que vocês não precisam saber com antecedência", o cigano pegou seu molho de cartas, e as colocou sobre a bancada, retirou duas delas, colocando-as na vertical, e então retirou mais duas, colocando na horizontal paralelas às primeiras, formando uma cruz mal feita. Sorriu, debochado, e então recolheu-as. Quando terminou de reagrupá-las, olhou para os dois homens, e disse: "Como por exemplo essas..." balançou o maço em suas mãos, "Vocês não tem que saber", piscou, e então deixou o recinto.
Praticamente todos estavam atônitos, menos o ilusionista, que conhecia Tao a tempo suficiente para saber que ele estava correto. O fato de ele poder saber coisas sobre o futuro não dava o direito de todos saberem também. Afinal, mexer com o destino não dava nada certo. A partir do momento que você sabe que algo vai acontecer, você automaticamente tenta fazer de tudo para aquilo realmente ser verdade, entretanto quando faz isso, você pode acabar mudando o percurso do destino. Nunca se sabe quando uma pessoa vai entrar na porta errada.
"Pois bem", Kai começou a falar, olhando para os dois meninos, "eu ainda tenho muito o que pensar, e eu deveria expulsá-los daqui imediatamente, porém vocês viram demais. E além do mais, eu confio em Tao o suficiente para saber que ele não está mentindo."
"Mas JongIn..." o outro dançarino, uma espécie de artista na verdade, se pronunciou, e Kai apenas levantou a mão, em um gesto claro para que ele se mativesse quieto.
Kai suspirou por ter sido chamado pelo verdadeiro nome, não gostava que pessoas de fora tomassem consciência disso, mas depois de ter sido descoberto, isso se tornava algo totalmente banal. 
O domador fazia carinho em sua fera, que ainda estava ao lado de BaekHyun, lambendo-lhe a mão direita, fazendo-o sorrir, e acariciá-lo com a outra mão. ChanYeol olhou para BaekHyun, e mais uma vez o sangue do garoto borbulhou.
"Vocês ficam aqui hoje", Kai disse para SeHun que estava impassível novamente. "XiuMin, arranje uma tenda confortável para eles por favor. E Chen, por favor, cozinhe algo".
Os dois amigos e subordinados ouviram suas tarefas com atenção, e então saíram da tenda principal. LuHan bufou e foi para seu quarto, enquanto YiXing ria do garoto, e também deixava o ambiente, indo atrás de XiuMin para ajudá-lo.
"Espero que o que vocês viram não saia daqui", Kai disse, seu tom era quase uma súplica. 
"Não vai sair, pode confiar". 
"Seu nome?" Kai perguntou, sentando-se em uma grande caixa que estava suja de purpurina prateada, fazendo uma careta ao constar-se de tal coisa.
"Oh SeHun. O seu é Jong In, certo?"
O mágico apenas confirmou com a cabeça, dirigindo o olhar para o outro, que ainda acariciava o tigre.
"O meu é Byun BaekHyun".
"Parece que Kirios gostou de você", comentou JongIn que olhava fixamente para ChanYeol. Pareciam estar trocando informações ali, e SeHun sentia-se desconfortável perante uma intensidade tão grande.
"Ele é magnífico..." BaekHyun comentou, agora acariciando a parte traseira de uma das orelhas de Kirios. O animal era simplesmente maravilhoso. Seu pelo branco como a neve, e os olhso extremamente azuis, rodeados por litras negras que envolviam todo seu corpo como uma enorme tatuagem. Eram listras tão bem desenhadas, pareciam até mesmo pintadas a mão. BaekHyun não conseguia evitar perder-se nas orbes daquela criatura formidável. "Hm, Kai..." chamou BaekHyun, e quando teve a atenção do ilusionista, prosseguiu: "Nós pretendemos ficar com vocês. Eu sei que isso é louco, e inusitado, mas por favor, nos deixe ficar".
Kai ficou em silêncio por vários minutos, relembrando-se de Tao retirando as cartas, lembrando-se daquele olhar, daquele sorriso. Sabia que tinha algo grande por trás de tudo aquilo. Além do que, ninguém nunca havia querido ficar com o circo assim. Era impensado, realmente, aqueles ali eram duas crianças. Suspirou.
"Vocês tem uma semana para mostrar que serão úteis", Kai finalmente se pronunciou e o sorriso de BaekHyun cresceu consideravelmente. Jong In levantou-se, passando a mão pelos cabelos, virando-se de costas para ir embora, mas antes, virou para BaekHyun e completou: "você é o novo assistente de ChanYeol". E então partiu.
ChanYeol já estava de costas e caminhava para o lado oposto de Kai quando o ouviu dizer aquilo. Ergueu as sobrancelhas , pensando em como seria aquilo e então seus sentidos já estavam longe da capacidade de ouvir Kai, apesar de ter certeza que ele tinha saído de lá também. 
Kirios lambeu a mão de BaekHyun uma última vez, antes de seguir seu dono até seus próprios aposentos. BaekHyun tinha um bico enorme nos lábios, como uma criança emburrada que teve seu picolé negado em uma tarde de calor.
SeHun riu de seu amigo, e bagunçou-lhe os cabelos, e XiuMin entrou à tenda novamente, dizendo-lhes que seu novo quarto estava pronto, assim como a comida. Eles lhe sorriram, seguindo com alegria e curiosidade. Provaram de uma comida maravilhosa; realmente Chen era um ótimo cozinheiro, e então seguiram para sua tenda, onde duas camas estavam devidamente arrumadas. 
"Nós temos um espetáculo esta noite. Eu os convidaria, mas acho que é melhor descansarem, vocês estão exaustos", XiuMin disse com simpatia.
BaekHyun respondeu-lhe que sim, que adorariam deitar e descansar aquela noite. E então após XiuMin ter certeza de que eles estavam bem instalados, os dois garotos desabaram sobre suas camas, sendo envolvidos por um sono pesado e sem sonhos.

Postado por Scarlett Lefévre às 10:43

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